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O mundo está se voltando para o Japão
De acordo com dados de múltiplas pesquisas, incluindo o Impact Monitor da SEC Newgate, o Japão tornou-se o parceiro para o qual uma ampla gama de países e empresas está se voltando
Nesta análise exclusiva, especialistas em corporate affairs da SEC Newgate nos Estados Unidos, União Europeia, América Latina e Ásia-Pacífico exploram como as relações comerciais do Japão estão evoluindo nesses mercados — e o que essa mudança significa para empresas globais que navegam em um cenário cada vez mais incerto.
Vivemos um período de redefinição das relações, em que a arquitetura das parcerias globais está sendo reconstruída em tempo real — não apenas recalibrada, mas fundamentalmente reconsiderada. Governos e empresas que passaram décadas otimizando eficiência agora estão priorizando resiliência, redesenhando cadeias de suprimento e questionando relações comerciais antes consideradas garantidas. Nesse ambiente, o valor atribuído à credibilidade — a parceiros com profundidade, estabilidade e consistência para entregar resultados no longo prazo — nunca foi tão alto.
Nesse contexto, um país emergiu como um notável ponto de convergência. Em geografias que raramente concordam entre si — do Golfo à América Latina, do Sudeste Asiático à Europa, de democracias consolidadas a economias emergentes — o Japão tornou-se o parceiro para o qual um número extraordinário de países e empresas está se voltando. Em um mundo fragmentado, esse tipo de atração transversal e multirregional é quase sem precedentes.
Os dados comprovam isso de forma impressionantemente consistente. O Impact Monitor da SEC Newgate, baseado em pesquisas com mais de 20 mil respondentes em 20 mercados, mostra o Japão como parceiro comercial preferencial de Singapura à Arábia Saudita, do Brasil à Espanha — em primeiro lugar em Singapura, em segundo no Brasil, Índia e México, e consistentemente entre os três primeiros nos mercados ocidentais. Uma pesquisa da Gallup, de fevereiro de 2026, aponta a mesma direção sob outro ângulo: pela primeira vez em mais de 35 anos, nem Canadá nem Reino Unido lideraram o ranking de favorabilidade entre os norte-americanos — o Japão ocupou a primeira posição, com 85% de aprovação, um dos índices mais altos já registrados pela Gallup para qualquer país desde 1989.
O que esses rankings refletem vai além de boa vontade bilateral ou volume de comércio. Eles demonstram o resultado de décadas de investimento deliberado em soft power, diplomacia, cooperação internacional, influência cultural e comportamento corporativo consistente — fatores que posicionaram o Japão como parceiro preferencial em mercados extremamente diversos. A reputação do Japão supera consistentemente o tamanho relativo de sua economia, e essa credibilidade acumulada está agora se convertendo em vantagem estratégica e comercial concreta, justamente no momento em que o mundo mais procura por parceiros confiáveis.
É precisamente para responder a esse momento — e ajudar clientes a navegar e capitalizar o papel crescente do Japão — que a SEC Newgate Japan foi inaugurada este ano.
À medida que cadeias de suprimento são reconfiguradas e estratégias de investimento recalibradas, o Japão passa a ser visto não apenas como mercado ou fornecedor, mas como parceiro estratégico para crescimento de longo prazo. Empresas que se alinham a companhias japonesas — seja por meio de joint ventures, coinvestimentos ou colaboração tecnológica — tendem a se beneficiar de maior resiliência e acesso ampliado a mercados.
Japão e Estados Unidos: uma parceria definida pelo momento
Em março deste ano, o presidente Donald Trump recebeu a primeira-ministra Sanae Takaichi na Casa Branca para uma cúpula e jantar oficial que simbolizaram o quão central o Japão se tornou para as prioridades estratégicas e econômicas dos Estados Unidos. A lista de convidados incluía Sundar Pichai, CEO da Google; Masayoshi Son, da SoftBank; e Larry Fink, da BlackRock, entre aproximadamente 70 participantes. Também foram anunciados investimentos conjuntos de até US$ 40 bilhões em energia nuclear via GE Vernova Hitachi, além de US$ 33 bilhões em infraestrutura de gás natural e novos avanços no compromisso japonês de investir US$ 550 bilhões nos EUA em áreas como semicondutores, minerais críticos, inteligência artificial e energia.Não se tratou de diplomacia simbólica, mas de uma sessão de trabalho entre dois governos que decidiram vincular materialmente seus futuros, na presença dos CEOs responsáveis por construir essa nova etapa.
O reposicionamento estratégico do Japão no Indo-Pacífico
O fato de essa relação ter alcançado esse patamar é resultado de uma parceria que se estende por mais de sete décadas. A aliança entre Estados Unidos e Japão, construída no pós-Segunda Guerra Mundial e formalizada pelo Tratado de Segurança Mútua de 1951, sustentou a estabilidade regional em todo o Indo-Pacífico por gerações — fornecendo a arquitetura de segurança dentro da qual o Japão reconstruiu sua economia e o Leste Asiático se desenvolveu como a região econômica mais dinâmica do mundo.
O que muda agora não é a solidez dessa base, mas a ambição construída sobre ela. O Japão já não é mais o parceiro protegido dessa relação. Está se tornando um coarquiteto da ordem no Indo-Pacífico, levando suas próprias capacidades, capital e peso estratégico para uma parceria que ambos os governos descrevem explicitamente como estando em uma nova era.
A dimensão de segurança é onde essa mudança se torna mais visível — e mais relevante para Washington. A transformação da defesa japonesa — com orçamentos recordes, capacidades de contra-ataque, uma arquitetura conjunta de comando fortalecida com as Forças dos EUA no Japão e a aceleração do codesenvolvimento em áreas como mísseis, semicondutores e sistemas navais — responde diretamente à principal exigência da administração Trump em relação aos aliados: atuar como parceiros capazes e ativos, e não como dependentes. Quando Trump precisou testar, na prática, a confiabilidade de suas alianças no início deste ano, solicitando apoio de países aliados para patrulhar o Estreito de Ormuz, Sanae Takaichi foi a primeira líder aliada a entrar no Salão Oval em resposta. Essa sequência não foi acidental — refletiu a posição que o Japão ocupa atualmente na hierarquia de relações estratégicas de Washington.
Os indicadores econômicos reforçam esse cenário. O Japão é hoje a maior fonte individual de investimento estrangeiro direto nos Estados Unidos, com um estoque de US$ 754 bilhões acumulado de forma consistente ao longo de mais de uma década, sustentando cerca de um milhão de empregos norte-americanos, concentrados principalmente na indústria de manufatura. O comércio bilateral de bens e serviços ultrapassa US$ 300 bilhões anuais. Esses números não são abstratos — representam cadeias de suprimento, linhas de produção e centros de pesquisa integrados à estrutura concreta da economia norte-americana de uma maneira que torna essa relação estruturalmente autossustentável e cada vez mais reforçada por seus próprios vínculos.
O que a transformação da relação EUA–Japão significa para empresas globais
Para empresas multinacionais, a reconfiguração da relação entre Estados Unidos e Japão é um dos sinais estratégicos mais relevantes desta década. Uma parceria bilateral que se aprofunda simultaneamente em áreas como coprodução de defesa, minerais críticos, energia e padrões tecnológicos — agora também respaldada por um forte apoio da opinião pública — cria uma janela de oportunidade diante da qual empresas sérias vão querer se posicionar antecipadamente, e não apenas tentar acompanhar depois.
A complexidade deste momento também eleva o nível de exigência sobre a forma como as empresas se posicionam e se relacionam. Navegar uma relação que evolui com tanta velocidade nas dimensões governamental, regulatória e comercial, em ambos os lados do Pacífico, exige não apenas estratégia de mercado, mas também sofisticadas capacidades de diplomacia corporativa.
Para empresas que enxergam o Japão como prioridade estratégica, essa competência está se tornando cada vez mais o fator que separa quem consegue acessar as oportunidades de quem permanece observando de fora.
Japão e União Europeia: uma reavaliação das prioridades estratégicas
Lendo nas entrelinhas do que circula pelos corredores do Berlaymont ou do Parlamento Europeu, algo mudou em Bruxelas nos últimos dezoito meses no universo das relações comerciais. O Japão — um país que raramente dominava a agenda nos corredores institucionais da União Europeia — começou a aparecer com uma frequência impressionante. Isso se percebe em discussões de comitês, workshops sobre resiliência de cadeias de suprimento e em conversas privadas entre diretores de corporate affairs tentando mapear o que vem pela frente. Essa recorrência merece atenção.
Parte disso é circunstancial. O enfraquecimento da relação transatlântica forçou empresas e formuladores de políticas europeus a reconsiderarem parcerias que antes tomavam como garantidas. E isso também se reflete em dados bastante reveladores de diversas pesquisas — o SEC Newgate Impact Monitor mostra o Japão entre os parceiros internacionais com percepção mais positiva no mundo: 65% dos entrevistados classificam a relação como boa ou melhor, em um patamar equivalente ao do Canadá e do Reino Unido. Uma pesquisa da Euroconsumers, realizada em fevereiro de 2026 em 10 Estados-membros da União Europeia, apontou que 51% dos consumidores europeus agora identificam o Japão (e a Coreia do Sul) como a principal prioridade comercial da UE, à frente dos Estados Unidos. Da mesma forma, os dados da Gallup contam uma história compatível: à medida que a confiança em parceiros tradicionalmente dominantes se desgasta, atores estáveis institucionalmente e comprometidos com regras ganham espaço. Essas análises confirmam uma tendência. Mas não a explicam completamente, porque o que está acontecendo é algo mais estrutural.
Da eficiência à resiliência
As empresas europeias passaram trinta anos otimizando cadeias de suprimento para eficiência. As rupturas dos últimos cinco anos — pandemia, guerra na Ucrânia e escalada tarifária — expuseram o custo dessa otimização. A resiliência foi sacrificada em nome da margem. O Japão oferece algo diferente em setores críticos: componentes automotivos, materiais semicondutores, farmacêuticos e engenharia de alta precisão. Quando isso se combina a padrões regulatórios e proteções de propriedade intelectual genuinamente compatíveis com os frameworks europeus, o Japão se torna um parceiro comercial estratégico e ideal.
À medida que a União Europeia aprofunda seu engajamento com os membros do CPTPP — o Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica, um dos maiores blocos comerciais de altos padrões do mundo, abrangendo o Indo-Pacífico — e explora a possibilidade de um futuro acordo de comércio e investimentos, o papel central do Japão dentro desse bloco reforça ainda mais seu status como aliado estratégico. Essa convergência é fortalecida por um compromisso compartilhado com a reforma da OMC e a modernização do comércio multilateral. Até hoje, o principal instrumento dessa cooperação continua sendo o Acordo de Parceria Econômica UE-Japão; ainda assim, apesar de estar em vigor desde 2019, ele permanece significativamente subutilizado. É precisamente nesse espaço entre a arquitetura legal e a intenção estratégica que reside a oportunidade.
As implicações empresariais da relação UE-Japão
Existe também uma dimensão menos óbvia, que profissionais de corporate affairs estão mais preparados do que a maioria para perceber. A disputa para definir padrões globais em governança de IA, hidrogênio renovável, tecnologia de baterias e infraestrutura digital não é, primordialmente, uma corrida técnica — é uma disputa política. Japão e União Europeia compartilham um interesse fundamental comum em garantir que a formulação de regras nesses domínios reflita princípios de economias abertas e do Estado de Direito. Empresas que se posicionarem como pontes eficazes entre esses dois ecossistemas regulatórios terão uma vantagem estrutural difícil de ser replicada por concorrentes que construam capacidades exclusivamente transatlânticas ou exclusivamente voltadas para a China.
O lado do consumidor também merece atenção. Não como uma narrativa superficial sobre sentimento, mas como um sinal de mercado. Segundo a pesquisa da Euroconsumers, 44% dos consumidores europeus já reduziram suas compras de empresas norte-americanas. A mesma lógica que impulsiona esse comportamento cria espaço comercial real para propostas UE-Japão construídas em torno de estabilidade, convergência de qualidade e padrões compartilhados. Isso não é posicionamento de marca. É acesso a mercado.
A relação entre União Europeia e Japão foi estrategicamente subvalorizada durante muito tempo — tratada como sólida, porém secundária; confiável, porém não urgente. O momento atual, fortalecido pelo sucesso da cúpula UE-Japão de 2025 e pelo lançamento da Competitiveness Alliance — criada para ampliar a cooperação em comércio, segurança econômica e inovação — alterou esse cálculo. Para líderes empresariais europeus, a questão já não é mais se o Japão deve ocupar uma posição central em sua estratégia para a Ásia. A questão é se suas organizações possuem prontidão suficiente para agir sobre esse reconhecimento antes que essa janela de oportunidade se estreite.
Japão e Índia: uma parceria de longo prazo em meio às mudanças das equações globais
A relação da Índia com o Japão pode ser descrita como boa, caminhando claramente para excelente. Não se trata apenas de uma relação entre governos. Essa parceria não foi construída somente sobre comércio. Ela se apoia em uma combinação rara de afinidade histórica, boa vontade pública, cooperação em infraestrutura, confiança estratégica e um interesse compartilhado na construção de um futuro asiático estável, orientado por tecnologia.
O sentimento público é marcante. De acordo com o recente SEC Newgate Global Impact Monitor, 88% dos indianos entrevistados classificam a relação entre Índia e Japão como boa — ficando atrás apenas dos Emirados Árabes Unidos, com 89%.
As raízes profundas da relação Índia-Japão
Essa visão favorável da Índia em relação ao Japão possui raízes profundas. Índia e Japão compartilham vínculos civilizatórios por meio do budismo, que viajou da Índia para o Japão e deixou uma influência duradoura na cultura japonesa. A boa vontade diplomática moderna também possui uma forte base no pós-guerra. A Índia assinou um tratado de paz com o Japão em 1952 e renunciou às reparações de guerra, gesto que gerou boa vontade no Japão em um momento difícil de sua história. Com o tempo, essa relação evoluiu para o que ambos os lados chamam de Parceria Estratégica Global Especial — uma expressão que reflete cooperação em diplomacia, segurança, investimentos, infraestrutura, tecnologia, energia e intercâmbio entre pessoas.
O símbolo mais visível dessa relação é o projeto ferroviário de alta velocidade Mumbai-Ahmedabad, popularmente conhecido como projeto do trem-bala, que utiliza a tecnologia japonesa Shinkansen. Um compromisso de investimento de 5 trilhões de ienes ao longo de cinco anos (a partir de 2022) apoia o programa "Make in India" por meio da diversificação de cadeias de suprimento e da Parceria de Competitividade Industrial Índia-Japão. O metrô de Délhi tornou-se um dos projetos de transporte urbano mais admirados da Índia com apoio financeiro e técnico japonês. O Japão também apoiou o Corredor Ferroviário Exclusivo Ocidental de Cargas e o Corredor Industrial Délhi-Mumbai, ambos fundamentais para melhorar logística, capacidade industrial e competitividade manufatureira na Índia.
O Japão também é uma das fontes mais importantes de investimento estrangeiro direto para a Índia. Segundo dados do governo indiano citados em 2025, os investimentos japoneses no país ultrapassaram US$ 43 bilhões entre 2000 e 2024, tornando o Japão a quinta maior fonte de investimento estrangeiro da Índia. Mais importante ainda: o investimento japonês não é percebido na Índia como capital de curto prazo. Ele é associado à disciplina industrial, transferência de tecnologia, sistemas de qualidade e parcerias industriais de longo prazo. Empresas como Suzuki, Toyota, Honda, Panasonic, Hitachi e Mitsubishi ajudaram a moldar os setores automotivo, eletrônico, de engenharia e infraestrutura da Índia.
Em 2025, Índia e Japão adotaram a Visão Conjunta para a Próxima Década, estabelecendo uma meta de 10 trilhões de ienes — cerca de US$ 68 bilhões — em investimentos privados japoneses na Índia ao longo dos próximos dez anos. Isso não é apenas um número de investimento. Sinaliza que o Japão vê a Índia como um importante parceiro de longo prazo em produção, inovação e cadeias de suprimento. A Índia, por sua vez, enxerga o Japão como um parceiro confiável para suas ambições manufatureiras, especialmente em eletrônicos, semicondutores, mobilidade elétrica, minerais críticos e tecnologias industriais avançadas.
O comércio bilateral cresceu, embora ainda permaneça abaixo do potencial. O comércio bilateral entre Japão e Índia alcançou US$ 22,85 bilhões no ano fiscal de 2023-24, com exportações japonesas para a Índia totalizando US$ 17,69 bilhões e exportações indianas para o Japão somando US$ 5,15 bilhões. O Acordo de Parceria Econômica Abrangente Índia-Japão, em vigor desde 2011, reduziu tarifas sobre uma ampla gama de produtos e criou um framework para cooperação em serviços e investimentos. Ainda assim, a participação das exportações indianas no mercado japonês permanece limitada, e ambos os países precisam avançar mais em acesso a mercado, alinhamento de padrões, comércio de serviços e mobilidade empresarial.
Uma abordagem comum para a transição energética
Um novo e importante pilar dessa relação é a energia limpa. O Japão vem emergindo como um parceiro energético alternativo relevante para a Índia, especialmente em hidrogênio, amônia, tecnologias de redução de carbono e energia nuclear. Em agosto de 2025, os dois países realizaram o 11º Diálogo Energético Índia-Japão e celebraram avanços em eficiência energética, hidrogênio limpo, amônia, energias renováveis, captura de carbono e tecnologias energéticas avançadas. Índia e Japão também emitiram uma Declaração Conjunta de Intenções sobre Hidrogênio Limpo e Amônia, voltada à promoção de pesquisa, investimentos e implementação de projetos nos dois países e também em terceiros mercados. Isso se alinha diretamente à ambição da Índia de se tornar um polo global de hidrogênio verde e à busca do Japão por parceiros confiáveis em combustíveis do futuro.
A energia nuclear é outra área estratégica. Para a Índia, que necessita de geração limpa em larga escala e de carga-base para sustentar seu crescimento, as capacidades tecnológicas e a cultura de segurança do Japão são extremamente valiosas. Para o Japão, a Índia representa um importante parceiro democrático na transição global para energia limpa.
Desafios e a próxima fase da cooperação
Também existem áreas em que a relação pode evoluir. Empresas japonesas ainda consideram o ambiente regulatório indiano complexo, apontando aquisição de terras, disputas tributárias, lentidão na execução de contratos e desigualdades de infraestrutura entre estados indianos como desafios relevantes. A Índia gostaria que o investimento japonês avançasse mais rapidamente para setores de alto crescimento, como semicondutores, baterias, robótica, equipamentos para energia limpa e manufatura avançada. O intercâmbio entre pessoas também permanece limitado. Por isso, o compromisso firmado em 2025 para ampliar a troca de trabalhadores, estudantes e profissionais é particularmente importante.
De forma geral, a Índia vê o Japão como um parceiro confiável, de alta qualidade e orientado para o futuro. A relação é boa hoje porque entregou resultados concretos e visíveis. Ela pode se tornar excelente se ambos os países avançarem de uma cooperação baseada em projetos específicos para uma parceria mais profunda em indústria, energia e tecnologia. Em um mundo que busca parcerias confiáveis, os laços entre Índia e Japão oferecem um poderoso exemplo de confiança traduzida em construção nacional.
Japão e Austrália: uma visão compartilhada por trás de uma cooperação econômica de longo prazo
A relação da Austrália com o Japão se destaca por sua profundidade, durabilidade e confiança. Trata-se de uma parceria que amadureceu para além dos fluxos comerciais, sustentada por interesses compartilhados: resiliência econômica, estabilidade regional e alinhamento estratégico de longo prazo.
A força dessa parceria se reflete claramente na percepção pública. O SEC Newgate Impact Monitor de 2025 mostra que 75% dos australianos veem o Japão como uma relação internacional positiva, posicionando-o em terceiro lugar, atrás apenas de outros países da Commonwealth, Reino Unido e Canadá. Em contrapartida, os japoneses classificaram a Austrália como sua principal relação internacional. Isso não representa apenas boa vontade; é um sinal social de que essa relação é percebida como estável, construtiva e benéfica em tempos de incerteza.
Japão: um parceiro confiável para a resiliência nacional
Os laços entre Austrália e Japão foram construídos sobre uma cooperação econômica robusta em energia, recursos naturais, manufatura e tecnologia, mas o que diferencia essa relação é sua disciplina de longo prazo. O investimento japonês na Austrália é caracterizado por paciência, escala industrial e intenção estratégica, alinhando-se de forma próxima às expectativas australianas em torno de capital responsável, resiliência operacional e geração de valor duradouro para as comunidades. Em um ambiente no qual a confiança pública depende cada vez mais de resultados concretos para a população local, esse modelo de capital se torna particularmente relevante.
O Impact Monitor evidencia uma mudança em direção a relações econômicas capazes de gerar benefícios domésticos visíveis: investimento local, empregos, segurança energética e fortalecimento de capacidades soberanas, mesmo a custos mais elevados. Diante da crescente preocupação com propriedade estrangeira e fragilidade das cadeias de suprimento, o Japão ocupa uma posição distinta, sendo visto não como fonte de vulnerabilidade, mas como parceiro que fortalece a resiliência nacional. Para além da economia, isso também se traduz em propósito estratégico compartilhado: ambos os países estão cada vez mais alinhados como potências médias com visão semelhante, comprometidas com comércio baseado em regras, estabilidade institucional e equilíbrio regional em um momento em que segurança econômica, segurança nacional e licença social para operar tornaram-se inseparáveis.
Sobre o Contrato Mogami: colaboração em defesa e segurança
Em termos de aprofundar essa plataforma já bastante sólida, a histórica visita da nova primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, à Austrália neste mês não poderia ocorrer em momento mais oportuno. Austrália e Japão recentemente inauguraram uma nova e transformadora fase de colaboração em defesa, tecnologia e pesquisa & desenvolvimento. A assinatura do contrato para as três primeiras fragatas da classe Mogami modernizada para a Marinha Real Australiana (RAN), em 18 de abril, como parte de um contrato mais amplo de AUD$ 20 bilhões, juntamente com o chamado "Memorando Mogami", fortalecerá significativamente as cadeias de suprimento em tecnologias de defesa críticas e inovadoras entre os dois países.
Segurança energética e o projeto Inpex
Energia e descarbonização representam uma das fronteiras mais importantes dessa parceria. Embora os australianos permaneçam sensíveis ao custo e à velocidade da transição energética, o Impact Monitor mostra apoio majoritário claro às energias renováveis e à ação climática, com dois terços dos australianos acreditando que a transição para energia limpa é importante para o futuro do país.
O interesse japonês em fontes de energia seguras, diversificadas e de baixo carbono se alinha diretamente aos recursos naturais australianos e aos objetivos de transição energética do país. A colaboração em hidrogênio, amônia, minerais críticos e energias renováveis posiciona a relação bilateral não apenas como uma dinâmica entre comprador e fornecedor, mas como uma resposta estratégica compartilhada às pressões por segurança energética e descarbonização em todo o Indo-Pacífico.
Há mais de 40 anos, a Austrália é um parceiro comprovadamente confiável no fornecimento de energia ao Japão. Atualmente, continua suprindo cerca de 30% das necessidades energéticas totais japonesas.
A escala e a ambição dos investimentos japoneses no setor energético australiano já estão bem estabelecidas e talvez sejam melhor exemplificadas pelo projeto Ichthys LNG, da INPEX — um empreendimento de extraordinária complexidade de engenharia que, no momento de sua decisão final de investimento em 2012, representou o maior investimento internacional já realizado por uma empresa privada japonesa. Desde 2011, os investimentos de capital da INPEX na Austrália ultrapassaram AUD$ 76 bilhões, gerando mais de AUD$ 1,5 bilhão em receita operacional anual e reforçando a relevância econômica duradoura dessa parceria.
Investimento estrangeiro direto japonês e investimentos inovadores em IA na Austrália
O Japão é hoje a segunda maior fonte de Investimento Estrangeiro Direto (FDI) acumulado na Austrália, totalizando aproximadamente AUD$ 159,5 bilhões. Mais importante ainda, esse investimento expandiu-se muito além dos setores de recursos naturais e energia, alcançando praticamente toda a economia australiana, incluindo serviços financeiros, espaço, defesa, cibersegurança, telecomunicações e TIC, minerais críticos, educação e capacitação, construção e mercado imobiliário, além de áreas tradicionalmente fortes como saúde, agricultura e processamento de alimentos.
Um dos desenvolvimentos recentes mais relevantes é o surgimento de investimentos japoneses em capacidade de data centers voltados para inteligência artificial em Sydney. Isso reflete os sólidos fundamentos digitais da Austrália, especialmente o acesso de New South Wales às redes internacionais de cabos submarinos e a profundidade e maturidade do ecossistema de data centers da Grande Sydney.
Implicações para formuladores de políticas públicas e corporações globais
Para formuladores de políticas públicas, a relação Austrália-Japão oferece uma plataforma para buscar segurança econômica sem recorrer ao protecionismo. Demonstra que parcerias internacionais confiáveis podem coexistir com fortes expectativas domésticas relacionadas à localização de investimentos, soberania e equidade.
Para as empresas, a mensagem é igualmente clara. Em ambos os países, o sucesso depende cada vez mais de credibilidade local, contribuição às comunidades e compromisso de longo prazo. Empresas japonesas operando na Austrália — assim como empresas australianas atuando no Japão — encontram-se bem posicionadas, mas passam a ser julgadas não apenas por desempenho comercial, e sim pela forma visível como contribuem para prioridades locais: empregos, segurança energética, capacitação e confiança.
Em um mundo fragmentado, a relação Austrália-Japão demonstra como se constrói uma parceria internacional sustentável: estratégica, recíproca e enraizada na confiança pública.
Japão e Singapura: de corredor comercial a parceiros alinhados por valores e estratégia
A evolução da relação de Singapura com o Japão — de um parceiro comercial tradicional para um coinvestidor e parceiro tecnológico — sinaliza um amadurecimento dos laços bilaterais: da transação para a colaboração e do acesso para a ambição compartilhada. A percepção pública reconhece esse avanço: 84% dos singapurianos afirmam que a República mantém uma boa relação empresarial e ESG com o Japão, segundo dados do SEC Newgate Impact Monitor de 2025. Isso reflete seis décadas de investimento institucional, cooperação econômica e, mais recentemente, uma redefinição do propósito das relações bilaterais.
Em março de 2026, Singapura e Japão elevaram seus laços ao status de parceria estratégica, coincidindo com o 60º aniversário das relações diplomáticas entre os dois países. Em artigo publicado no Nikkei antes de sua visita oficial a Tóquio, o primeiro-ministro Lawrence Wong observou que ambas as nações enfrentam "um mundo marcado por intensa incerteza, fragmentação e disrupção", o que exige cooperação mais profunda entre parceiros alinhados em torno do comércio baseado em regras e de economias abertas e resilientes.
O Japão foi o quarto maior parceiro comercial e fonte de investimento estrangeiro direto de Singapura em 2024, reforçando a solidez dessa relação bilateral. O aprofundamento dessa parceria já é visível na prática. Em julho de 2025, a listagem do NTT DC REIT na Bolsa de Singapura — a maior listagem de um REIT em uma década — contou com o fundo soberano singapuriano GIC como investidor âncora. Em novembro de 2025, o Sumitomo Mitsui Financial Group lançou em Singapura uma venture voltada a soluções de inteligência artificial agentiva para desenvolver capacidades corporativas em IA.
Esses movimentos refletem uma reorientação mais ampla, com ambos os governos assumindo recentemente o compromisso de colaborar em semicondutores, governança de inteligência artificial, pesquisa quântica e infraestrutura digital e verde necessária para sustentar a transição da região.
O que a próxima fase da parceria Japão-Singapura significa para formuladores de políticas públicas e corporações globais
Olhando para o futuro, essa parceria tende a se fortalecer em três dimensões principais:
- Energia e sustentabilidade: ambos os países estão avançando na colaboração em hidrogênio de baixo carbono, amônia, captura de carbono e energia nuclear civil.
- Governança digital: como coorganizadores da Iniciativa de Comércio Eletrônico da Organização Mundial do Comércio, ao lado da Austrália, os dois países encontram-se em posição privilegiada para moldar a infraestrutura regulatória da região.
- Geopolítica: o papel de Singapura como coordenadora da ASEAN e futura presidência da organização em 2027 faz do país um canal natural para o engajamento entre Japão e ASEAN sob a visão da primeira-ministra Sanae Takaichi para um Indo-Pacífico Livre e Aberto.
Para formuladores de políticas públicas, essa evolução reforça o valor de Singapura como um hub neutro conectando o Nordeste e o Sudeste Asiático. Para empresas, cria novas oportunidades para estruturar plataformas regionais que combinem a profundidade tecnológica japonesa com a conectividade, os mercados de capitais e o acesso de Singapura aos setores de crescimento do Sudeste Asiático. Juntos, os dois países estão cada vez mais definindo um modelo de parceria no Indo-Pacífico centrado em coimaginação, cocriação e coevolução.
Japão e América Latina: alinhamento estratégico em uma era de fragmentação e reconfiguração das cadeias de suprimento
Na América Latina, o Japão figura consistentemente entre os parceiros internacionais com percepção mais positiva. Segundo o Impact Monitor da SEC Newgate, no Brasil, 70% dos entrevistados classificam a relação com o Japão como boa, muito boa ou excelente, posicionando o país entre os três parceiros globais mais bem avaliados. No México, essa percepção é ainda mais forte, alcançando 74%, novamente colocando o Japão entre as relações internacionais de maior confiança para o país.
Como demonstrado pelo Impact Monitor da SEC Newgate, o crescente movimento em direção à localização está intensificando a tensão entre integração global e expectativas locais, moldando o ambiente operacional atual para empresas que navegam nas relações entre Japão e América Latina.
Brasil: ativos estratégicos de longo prazo e complexidade de governança
A relação Brasil–Japão é complementar. O Brasil é um dos maiores exportadores mundiais de commodities agrícolas e recursos naturais, enquanto o Japão é um grande importador de alimentos, insumos energéticos e materiais industriais. Em 2025, as exportações brasileiras para o Japão alcançaram aproximadamente US$ 5,5 bilhões, concentradas principalmente em minério de ferro, carnes, produtos derivados de soja e outras commodities. A dependência estrutural japonesa de importações reforça essa relação. Por exemplo, o país depende de importações para aproximadamente um terço de seu abastecimento alimentar, tornando parcerias de longo prazo com exportadores agrícolas estrategicamente relevantes.
Desenvolvimentos políticos recentes sugerem um esforço de aprofundamento dessa relação. Em 2025, Brasil e Japão assinaram múltiplos acordos para expandir a cooperação em comércio, investimentos e tecnologia, marcando uma nova fase das relações bilaterais. Essas iniciativas estão alinhadas a tendências globais mais amplas, incluindo a necessidade de diversificar cadeias de suprimento e reduzir dependências de regiões geopoliticamente sensíveis.
Do ponto de vista empresarial, três setores se destacam:
- Agronegócio: o Brasil permanece como fornecedor estratégico de carnes, grãos e alimentos, com crescente diversificação em direção aos mercados asiáticos à medida que as políticas comerciais dos Estados Unidos sofrem oscilações. Mudanças recentes nos fluxos de exportação mostram o Brasil redirecionando parte de sua produção agrícola para mercados como o Japão em meio a disrupções tarifárias em outras regiões.
- Transição energética: a liderança brasileira em biocombustíveis, hidrelétricas e energias renováveis se alinha à agenda japonesa de descarbonização, criando oportunidades em etanol, hidrogênio e combustível sustentável de aviação.
- Minerais críticos e mineração: à medida que a competição global por materiais para baterias e insumos industriais se intensifica, a base de recursos naturais brasileira se torna cada vez mais estratégica.
O ambiente macroeconômico mais amplo também introduz incertezas. A elevação de tarifas globais e o crescimento mais lento do comércio internacional devem pressionar as exportações brasileiras, ainda que a forte produção agrícola continue sustentando o desempenho geral da economia. Para além da economia, os laços culturais desempenham papel relevante. O Brasil abriga a maior diáspora japonesa fora do Japão, estimada em mais de 2 milhões de pessoas, o que historicamente facilitou negócios, relações de confiança e vínculos institucionais entre os dois países.
Pontos-chave para empresas que operam entre Brasil e Japão
- Forte alinhamento de demanda em segurança alimentar, energética e de recursos naturais
- Crescentes oportunidades em transição energética e tecnologias sustentáveis
- Importância crescente de ESG e posicionamento reputacional
- Complexidade regulatória e fiscal exigindo gestão ativa de stakeholders
- Necessidade de posicionamento estratégico de longo prazo acima de ganhos imediatos de mercado
México: integração manufatureira e nearshoring em escala
A relação do Japão com o México é fundamentalmente industrial. Diferentemente do Brasil, onde o comércio é impulsionado por recursos naturais, o México está profundamente integrado às redes globais de manufatura. Empresas japonesas investiram fortemente no país, especialmente nos setores automotivo e eletrônico, com investimentos superiores a US$ 18 bilhões apenas na indústria automobilística. Os fluxos comerciais refletem essa integração. Em 2025, as exportações japonesas para o México alcançaram aproximadamente US$ 11,6 bilhões, compostas majoritariamente por máquinas, componentes automotivos e equipamentos industriais. Ao mesmo tempo, o Japão representa cerca de 3% dos destinos das exportações mexicanas e mais de 3% de suas importações, reforçando seu papel como parceiro industrial estratégico.
Gerenciando exposição geopolítica no ambiente de investimentos mexicano
No entanto, esse modelo está cada vez mais exposto ao risco geopolítico. A política comercial dos Estados Unidos permanece como a variável mais importante para a economia mexicana. Tarifas, incentivos de reshoring e potenciais renegociações do USMCA criam incertezas para investidores estrangeiros. Discussões recentes sobre tarifas aplicadas às exportações mexicanas já geraram preocupações entre fabricantes japoneses em relação à sustentabilidade de suas estratégias de investimento.
Ao mesmo tempo, o México vem diversificando ativamente suas parcerias. Acordos recentes de cooperação energética com o Japão, incluindo exportações de petróleo bruto, sinalizam um esforço para aprofundar os laços bilaterais para além da manufatura. Do ponto de vista do ambiente de negócios, o México combina forte capacidade industrial com desafios estruturais. Entre eles estão lacunas de infraestrutura, mudanças regulatórias e questões de segurança em determinadas regiões. Além disso, assim como no Brasil, o México apresenta fortes expectativas sociais relacionadas ao impacto local:
- 64% apoiam contratação local mesmo a custos mais elevados
- 59% apoiam manufatura local nas mesmas condições
Essas expectativas reforçam a necessidade de as empresas equilibrar eficiência com engajamento local e legitimidade social.
Pontos-chave para empresas que operam entre México e Japão
- Alta exposição à política comercial dos EUA e a mudanças geopolíticas
- Forte presença japonesa na manufatura, especialmente no setor automotivo
- Crescente diversificação para energia e cooperação comercial mais ampla
- Pressão crescente por contribuição econômica local e alinhamento com stakeholders
A necessidade de uma abordagem integrada
O engajamento do Japão com a América Latina reflete uma transformação mais ampla na estratégia econômica global. Em vez de depender de mercados únicos, empresas vêm adotando abordagens diversificadas e multirregionais capazes de equilibrar eficiência, resiliência e risco geopolítico.
Ao mesmo tempo, o ambiente operacional está se tornando mais complexo. O Impact Monitor da SEC Newgate destaca que as empresas hoje são julgadas não apenas por desempenho econômico, mas também por sua capacidade de gerar impacto local, administrar expectativas de stakeholders e operar de maneira responsável em diferentes jurisdições. Para empresas e formuladores de políticas públicas, a implicação é clara: o sucesso nesses mercados exige mais do que estratégias de entrada. Exige uma abordagem integrada que combine consciência geopolítica, entendimento regulatório e engajamento qualificado com stakeholders.
Nesse contexto, capacidades de advisory capazes de conectar estratégia global e execução local tornam-se críticas. Apoiar empresas na navegação de ambientes regulatórios e políticos, no alinhamento com expectativas sociais e na gestão de riscos reputacionais passa a ser cada vez mais central para viabilizar crescimento sustentável e de longo prazo nas relações entre Japão e América Latina.


